Sutiãs, cintas modeladoras, espartilhos e calcinhas de alças desde 1900.
A roupa íntima feminina passou por mudanças sem precedentes no início do século XX. Após séculos de espartilhos com barbatanas de baleia, surgiram as peças íntimas modernas com o advento da cinta modeladora e do sutiã. O século XIX é considerado há muito tempo a era do desaparecimento do espartilho, um primeiro passo rumo à progressiva libertação do corpo feminino, em conjunto com o surgimento de um novo modelo: a mulher ativa. Mas, embora as mulheres tenham começado a ocupar um novo lugar na sociedade, elas não deixaram de moldar seus corpos de acordo com as exigências da moda. Longe de desaparecer, as peças íntimas restritivas evoluíram e assumiram novas formas.
DO CORSET À CINTA
Durante a década de 1890, o espartilho tornou-se mais longo e estreito, criando o que ficou conhecido como silhueta em “S”. No início do século XX, as silhuetas femininas se transformaram: a Belle Époque favoreceu a linha “império”: as linhas sinuosas da primeira década do século deram lugar a uma forma mais reta e “natural”. Os espartilhos continuaram a sofrer mutações no início do século XX, tornando-se progressivamente mais longos para envolver o abdômen e os quadris. Em vez de se concentrarem na cintura ou no busto, o novo tipo de espartilho atuava da cintura até a parte superior das coxas. Essa mutação deu origem à cinta modeladora. Esse novo nome, que surgiu por volta da época da Primeira Guerra Mundial, descrevia originalmente um espartilho curto que se estendia da cintura até os quadris e o abdômen. Por algum tempo, a distinção entre espartilho e cinta modeladora permaneceu vaga. A grande quantidade de nomes usados em jornais e revistas de moda ilustra claramente a falta de uma distinção clara entre eles. Até 1930, termos como "cinta modeladora", "espartilho", "cinto-espartilho", "espartilho de quadril" e "cinto de cinta" eram usados indistintamente em catálogos de lojas de departamento. Mais tarde, a cinta modeladora se diferenciou do espartilho essencialmente pelos materiais utilizados: mais flexível que o espartilho, era fabricada com materiais novos e inovadores que permitiam maior flexibilidade e adaptabilidade, como a borracha, usada na forma de elástico. O fim do espartilho já havia sido anunciado há muito tempo, mas, na realidade, a cinta modeladora era simplesmente sua evolução mais recente. Ela, no entanto, reduziu a rigidez: a parte superior do corpo e os quadris passaram a se mover independentemente um do outro. Mesmo assim, o corpo da mulher continuou a ser restringido por práticas bem estabelecidas.
A gênese do sutiã:
O surgimento do sutiã está ligado à transformação do espartilho durante a Belle Époque. A forma mais antiga de sutiã remonta à Antiguidade, quando uma faixa de tecido conhecida como apodesma era usada para sustentar os seios, comprimindo-os. O sutiã moderno surgiu no final do século XIX, mas só foi adotado pelas mulheres na década de 1920. Nos primeiros anos do século XX, o espartilho ainda sustentava os seios por baixo, comprimindo o busto. Quando, no início do século, o espartilho evoluiu e deixou o busto descoberto, os seios precisaram ser sustentados por outros meios.
Os pedidos de patente registrados nos Estados Unidos durante a década de 1860 atestam as pesquisas realizadas com o objetivo de criar uma peça íntima cuja função exclusiva era sustentar os seios femininos. Entre 1880 e 1890, o número de invenções se multiplicou, culminando na criação do sutiã. Os primeiros modelos eram frequentemente apresentados em conjunto com o uso de um espartilho, sendo rígidos, de corte amplo e reforçados. Esse foi o caso do famoso "corselete-gorge", inventado por Herminie Cadolle, uma fabricante francesa de espartilhos que vivia em Buenos Aires. Apresentado pela primeira vez na Exposição Universal de 1889, era uma peça reforçada, com bojos para os seios e amarração na frente e nas costas. A verdadeira inovação desse modelo residia na forma como sustentava os seios: enquanto o espartilho os sustentava por baixo, o sutiã utilizava as alças para sustentá-los por cima. A ideia de sustentar os seios pelos ombros pode ter surgido do "cache-corset", um tipo de colete feito de algodão leve, que fechava com botões na frente. Este evoluiu para o sutiã característico da década de 1920. O formato do sutiã, portanto, permaneceu indeterminado por muito tempo, oscilando entre o espartilho e a lingerie.
A ROUPA ÍNTIMA DA MELINHA
Após 1920, as linhas do corpo continuaram a alongar-se; a magreza tornou-se gradualmente a forma desejada, enquanto, ao mesmo tempo, a moda de praticar atividades ao ar livre, como a natação, revelava o corpo de novas maneiras. Entre 1915 e 1925, o arquétipo da melindrosa dominou, à medida que as mulheres buscavam um visual andrógino. A silhueta já não enfatizava os atributos femininos tradicionais e as novas peças íntimas, o sutiã e a cinta, permitiam às mulheres construir essa nova silhueta. O sutiã, portanto, não tinha a intenção de enfatizar os seios. Por um tempo, manteve sua forma minimalista, uma simples faixa de tecido à qual se adicionavam alças. Sua decoração, no entanto, podia ser ostentosa, como se vê no modelo apresentado na Exposição Internacional de Artes Decorativas de 1925 e que agora se encontra no Museu Galliera. Este exemplar ilustra a ausência de estrutura: a peça é plana, sem reforços ou barbatanas. Aqui, é a decoração que esquematiza a separação dos seios.
Para mulheres com seios maiores, existiam soluções mais radicais. O sutiã redutor usava compressão para diminuir o volume dos seios. Assim como o espartilho, ele incluía barbatanas e era amarrado nas costas; o princípio do amarramento continuava sendo o meio mais eficaz de afinar o corpo. O sutiã era usado com uma cinta, que tinha como objetivo afinar os quadris em vez de afinar a cintura. A silhueta da melindrosa era, portanto, uma linha vertical e colunar, sem interrupções por uma cintura marcada. A linha da cintura, indicada pela roupa, foi deslocada e rebaixada, agora situada na altura dos quadris. Com o tempo, a cinta e o sutiã foram unidos, formando uma única peça de lingerie, a camisola-calcinha que tinha a feliz vantagem de evitar o acúmulo de gordura na cintura, às vezes causado pelo uso da cinta. Surgindo na década de 1920, ainda era simplesmente chamado de "cinta" ou "cinta-espartilho" em catálogos comerciais, e seu uso se tornou mais difundido durante a década de 1930. As mulheres encontraram emancipação ao rejeitar as imagens tradicionais de feminilidade. Mas essa emancipação não incluía necessariamente a libertação do corpo. A melindrosa dançava, expondo as pernas e adquirindo novos níveis de atividade, mas sua silhueta ainda permanecia o resultado da construção artificial proporcionada por suas roupas íntimas.
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